03/12/2008

O banco

Antes de tudo, havia um banco, solitário em seu parque vendo as pessoas passarem. Não sentavam, estavam com pressa, e o banco, parado, se conformava a olhar. Cada feição de desgosto, de dor, de pressa, pois todos tinham pressa e era preciso correr.
Para onde iam com tanta pressa e de onde voltavam tão exaustos? Não sabia, observava, mas não captava. As vezes, num domingo ou outro, alguém resolvia sentar e ler. O banco com inveja se contorcia para olhar as histórias de amor de Jane Austen e Alencar.
Nos domingos as pessoas andavam com menos pressa e o banco sentia, dentro da tranqüilidade dos passos, uma melancolia pelo dia corrido que se seguiria. Andavam devagar para o domingo não passar rápido e com cara feia.
Era segunda novamente, cheia de pressa, correria, caras feias... Uma surpresa porém, uma garota a cantar! Ela senta e olha as árvores e começa sonhar com os olhos. O banco se encantou pela pureza da menina e quis compreender. Começou a chover, ela não se recolheu. Sentada, abria a boca e inclinava a cabeça pra cima pra provar da água.
Ah! O banco já leu esse livro! É Ray Bradbury e ele reconhece! Decidiu chamá-la de Clarisse, em homenagem a McClellan.
Clarisse a menina que senta e aproveita a chuva de verão... cantando! Desafinava e ria de si mesma, uma risada tão gostosa que o banco se apaixonou. Quis abraçá-la, mas era banco. Ficou triste e fez da chuva suas lágrimas.
Avistou um rapaz com um guarda-chuva muito grande e percebeu que a menina sorria ainda mais - sentiu ciúmes, mas se conteve. O menino sentou no banco. Quanta audácia! Sentou e abraçou a menina. Mas que falta de respeito! E disse que a amava, como quem pede desculpas pelo atraso sem querer pedir perdão. Ela compreendeu e desculpou com um beijo e, então, o sol se abriu.
Foram em direção a praia para caminhar, de mãos dadas e felizes. Esqueceram o guarda-chuva , objeto que só é lembrado quando necessário. E o guarda-chuva ficou triste, sua umidez eram seus olhos lacrimejantes.
O banco com pena quis dizer algo bonito, não disse, pois era banco. Deu suporte e o guarda-chuva compreendeu. E, de repente, não estavam mais tão tristes, pois não estavam sós. Eram dois, o número perfeito para se criar um nós.

Um comentário:

Aldenor disse...

Entendi melhor agora no final pq antes eu lia "barco" e não "banco"... dislexia a minha!
Uma história bonita que é um pouco melancólica, mas ainda assim, bela.