Ai, minha pequena, não sabes como sofro ao ter ver passar e não te abraçar, não te beijar, não declarar essa paixão emudecida que me atormenta dia e noite. Sentir a falta de teu jeito eterno de criança e dos horizontes negros de teus olhos que me afogam e me inundam de desejo e amor. Não sabes como me dói ter perdido o teu amor, e por um motivo tão tolo quanto o medo. Medo de me arriscar em amores improváveis. Você, tão pequena, tão jovem, tão ingênua, que cabe ainda escondidinha no cantinho esquerdo de meu coração. Lá te escondo, para a outra não ver que meu coração não é só dela. Ela é a outra e você é a uma, mas eu me engano de que ela é a uma e você é a outra, pois soa tão besta ainda, depois de tudo, te amar. Às vezes me vejo, no sofá, esperando você voltar da escola para me ligar, tão fiel no teu amor de menina... Eu tive medo de amar como homem e ser amado por menina e não mulher, que tolo que fui. Eu acreditava que ainda existia uma esperança de te ter pra mim, que eu ainda poderia largar tudo e correr pros teus braços, mesmo sabendo que eu jamais teria a coragem para tal. E, realmente, não tive; perdi teu brilho de menina-mulher para um rapaz que soube ter coragem. E ele te amou, como eu não pude amar. Como me doeu enxergar esse amor tão louco que tu sentias por aquele rapaz, tão diferente do amor sólido e dócil que sentias por mim. Negavas no início, mas desde já eu via. Amava-o como mulher e eu sofria, como homem que perdeu menina e mulher. Pior ainda foi te ver chorar por ele, que te amou e te magoou, da mesma forma que eu temi te amar, e magoar - e, no entanto, magoei por não amar, que foi ainda pior. Eu sofri pela minha covardia, pois fui eu quem te deixou, pela outra - que é uma, pois a outra tem que ser você. Era mais fácil, mais cômodo, mais sensato. E eu não posso dizer que não sou feliz - porque essa é a verdade, eu sou -, mas também não posso dizer que não sofro a tua falta e que não te amo loucamente - pois você é a minha vaidade, é meu mundo de sonhos e de contemplação. Ai, minha menina, delicada como um botão de rosa, eu sou mesmo um romântico por ti, mas só por ti, que desnorteia-me com um sorriso ou três versos avulsos. E teus versos, que com tamanha sensibilidade completavam os meus... Eu não canto tão bem em tua ausência... Sem você tudo é estúpido e Pixinguinha é só mais um compositor. Eu te amei, eu hesitei, eu te perdi. Mas não deixa, pequena, que os teus amores sem êxito te amargurem, pois teus olhos serão só olhos se perderes aquele inconfundível brilho de quem ainda, apesar dos pesares e desamores, acredita no amor.
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Um comentário:
= *
=~~
vc sabe né?
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