11/06/2007

Um gole, cheio de receio, desastrado, a derrubar, o café que queima a pele e mancha a roupa. Mancha amarga e incômoda, e despir-se não é uma opção, o pudor público não permite; ainda assim, a nudez, própria e/ou do próximo, é desejada por todos, em seu íntimo, em momento íntimo.
Descobertos e vulneráveis a críticas, despimo-nos pelo efêmero prazer carnal. Mas quem expõe o corpo nem sempre é capaz de expor a alma, não há gozo espiritual; a sociedade cultiva apenas prazeres descartáveis e fúteis. O sexo representa o fútil, e o parceiro, o descartável. Quantas experiências não passam de casuais? Até as amizades são casuais e frívolas, é só na hora de um afago não retribuído que nos damos conta; não era um amigo, era só alguém que estava a nosso lado, por pena ou por desencargo de consciência, talvez até, por mero acaso. Mas estar presente no momento em que se pronunciam palavras direcionadas a nós não é o mesmo que escutar, prestar atenção, tentar compreender, por-se no lugar. A preocupação que não é demonstrada não se vale de verdadeira, pois quem se preocupa demonstra involuntariamente. E o carinho, como se ter carinho por alguém e tratá-lo com indiferença? Se esquecer de ser carinhoso... Todos demonstram de maneira diferente, mas não demonstrar certas coisas, é não sentir.
Uma mãe perde o sono, se seu filho não voltar para casa e não der notícias; briga com ele em seu retorno pelo susto que a deu, e nisso, ela demonstra, não porque quer que seu filho saiba que ela teme por ele, mas porque a aflige de tal forma, que ela não consegue se conter. Por que haveria de ser diferente entre amigos ou amantes? Amor é amor, o resto são definições da sociedade; a única coisa que muda é como se vive o amor. O carinho, a preocupação, o respeito, isso tudo é imutável.
Mas estes não se fazem presente nas relações casuais, e nem sempre é fácil distinguir as pessoas que estão presentes das pessoas que realmente são. É valer-se do zelo, da lembrança e dos demais pequenos gestos para se diferenciar o coexistir do relacionar-se.
Há ainda quem tenha coragem de se expor, mas tudo acaba em café derramado; e o incômodo existencial, provindo da desilusão, se instala, num ferimento amargurado, como quem mancha a blusa de quem não quer se despir.

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